EM CHAMAS

Café da manhã. Na calmaria instalada no campus noutra dessas sorridentes manhãs ensolaradas, uma procissão de gente a despertar e cumprimentar-se num estado quase onírico arrastou-se pelo campus até o digníssimo restaurante universitário Solano Trindade, onde, mais uma vez, a comissão de alimentação realizava um trabalho irretocável. Pães com manteiga ou patê de atum jaziam em cestas com pequeninas placas improvisadas. Garrafas de café e chá dispostas organizadamente pela mesa eram nossas silenciosas e fumegantes sentinelas da auto-gestão universitária, essa que disseram-nos soar utópica e revolucionária demais.

Um burburinho animado – indubitavelmente incitado pela presença da comida – percorria as mesas onde se debatia à meia voz o futuro do dia; com o perdão do trocadilho óbvio e irresistível, todos viram-se ocupados com as atividades do calendário. Após a sinfonia de pratos sendo lavados e talheres entrechocando-se, cada um rumou para seus afazeres (alguns poucos, infelizmente, para um irritante ócio que dava na vista) e o trabalho fordista recomeçava mais uma vez.
No retorno, um trio alheio ao movimento falava com um dos alunos, os quatro caminhando lentamente por entre as barracas dispostas pela grama da entrada. O do meio albergava um ar requintado que eu atribuíra aos dentistas de Alphaville ou a gente que tem como emprego convencer as pessoas. Soube depois que eram repórteres da TV Gazeta e que, munidos de seus melhores sorrisos profissionais e uma potente filmadora, registraram a precária (pra haver precariedade, é preciso primeiro ter uma base; talvez o termo certo seja inexistente) situação da infraestrutura do campus.

Simpáticos, não demoraram-se muito e após uma rápida explanação sobre a procedência das imagens, desceram abaixo a Estrada do Caminho Velho com uma possível matéria em mãos.
Na parte de cima, onde ficavam as salas de aula mais próximas à saída, as paredes eram implacavelmente lixadas e pintadas de branco para um evento na sexta-feira.
A essa hora, algumas crianças do bairro já adentravam a universidade; umas mais tímidas, como a que perguntou-me num fio de voz se gostaria de jogar bola com ela, e outras mais agitadas, como a que tentou atacar-me energicamente com um cabo de vassoura. Uma oficina foi montada e a confecção de pequenas e coloridas bolas ocupou-as durante um tempo, além da mesa de xadrez/damas e das brincadeiras ocasionais com os estudantes que por elas passavam. Depois de jogar exatas 17 partidas de ping-pong com um garoto que parecia entender que o objetivo do jogo era jogar a bola o mais longe possível da mesa, deixei o espaço por um momento e ajudei na (horrível) tarefa de limpar o galpão, com mais meia dúzia de pessoas que se pareceram dispostas a encarar o labor inevitável. Os tapumes, derrubados pelas intempéries guarulhenses, apodreciam sistematicamente sob o sol quente e juntá-los era um trabalho lento, cansativo e enfadonho. A cada tábua solta que apanhava, umas outras três eram levadas até perto de nós pelo vento e por isso o ofício parecia nunca ter fim. Após cerca de uma hora e meia, alguns montes isolados já tomavam forma e um par de pessoas resolvera se juntar a nós, o que aumentou consideravelmente a velocidade da retirada. Nesse ponto, meu rosto já estava pontilhado por areia, pó e suor, nessa ordem. Ausentei-me para lavar-me e beber água, mas recebi apenas silêncio e expectativa ao entreabrir a torneira do banheiro mais próximo. Desconfiado da anormalidade (a sombra do mandado de reintegração de posse, já transitando pelas instâncias da Justiça Federal, pairava sobre nós) resolvi verificar a situação dos outros banheiros e bebedouros para ter uma noção do geral; nesses rápidos momentos, o boato já se espalhara pelo campus e ninguém parecia achar ser essa uma situação de coincidência ou acaso, tendo como histórico uma situação semelhante na ocupação anterior. Realmente não era, mas a verdade afigurava-se muito mais maleável do que o esperado. Havia algum problema na caixa d’água que precisou ser sanado pelos dois únicos alunos na ocupação que entendiam do assunto; salvadores dos banhos e goles de água no bebedouro, trabalharam durante a tarde inteira no problema e reapareceram apenas no meio da plenária da ocupação, onde debates sem começo e principalmente sem fim encasulavam as pautas propostas e davam margem para uma infinidade de discussões paralelas e interpretações subjetivas. O teto proposto foi estourado em surreais 90 minutos e cada fala-questão-de-ordem-direito-de-resposta-questão-de-esclarecimento-só-um-informe-rapidinho-galera-presta-atenção a mesa mostrava cada vez mais sinais de desgaste político, físico e mental. No fundo, creio que esperava por isso: se nas conjunturas de plena normalidade até as assembléias sobre questões simples geram polêmicas acaloradas, é previsível que a discussão se intensifique numa plenária de ocupação, onde precisamos lidar a cada dia com um fato novo, um problema novo, uma discussão nova, a gestão do campus, a integração com o bairro e um leque de coisas mais. Como não havíamos jantado com o problema da água, um recesso foi chamado na confiança que umas conchas de arroz e feijão inferissem bom-senso no  debate. Funcionou. No retorno, devidamente alimentados (outro trunfo da comissão de alimentação, que até sobremesa forneceu apesar de todo o cenário desfavorável pela ausência da água) e tremendamente mais ponderados, enterramos as pendências e propostas descabidas em mares de argumentação e consensos e a pauta foi enfim sistematizada e encaminhada. Percebi que na retomada havia um número consideravelmente inferior do que o anterior — e talvez por isso a segunda parte tenha sido mais dinâmica — e só os relembrei ao ouvir o agourento barulho de madeira sendo arrastada e notar uma movimentação atípica no galpão. Segundos depois, enormes labaredas incandescentes feriam alegremente a noite de céu estrelado. Haviam ateado fogo nos tapumes que ajudara a recolher durante a tarde e paramos aos poucos para apreciar as chamas, o silêncio interrompido apenas pelo crepitar das madeiras a se desfazer e por comentários ocasionais sobre um ou outro ponto ainda não esclarecido.

— Belo fim de noite. — Comentei com a pessoa ao meu lado, sem tirar os olhos das línguas de fogo que lambiam o escuro da noite. Ela, de ar preocupado e olhar fixo nas chamas, apenas ergueu minimamente o copo de água em cumprimento, perdida em pensamentos. A Unifesp ardia.

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4 respostas para EM CHAMAS

  1. Assistencialista disse:

    … meus olhos ardiam devido ao cheiro podre da MERDA que estamos fazendo. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  2. só quero estudar! disse:

    “e outras mais agitadas, como a que tentou atacar-me energicamente com um cabo de vassoura”

    Por um momento, pensei que estava falando do meu desejo contido.

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  3. Alguns alunos do campus pensam assim: O que adianta sacrificar um semestre se as melhorias só virão após minha formatura? Essa gente pensa assim, sempre em primeira pessoa, não estão nem ai para as gerações futuras, comungam do velho ditado: “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Já pensaram nessa gente formada e ministrando aulas por ai? Já pensaram no teor de suas aulas ?(apostila neles!). Já pensaram quando os professores quiserem brigar por melhorias salariais? Qual serão suas posturas? Hoje se escondem atrás de psudônimos, amanhã se esconderão atrás de suas próprias sombras. Que biografias deixarão essa gente?

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