A quebra do muro, o movimento estudantil e a importância da população frequentar o campus

Na segunda-feira, dia 28 de maio, os estudantes da Unifesp e alguns moradores do bairro derrubaram parte do muro da universidade, o que permitiu que diversas pessoas tivessem um acesso mais fácil à instituição e, consequentemente, tomassem contato com o movimento que está há setenta dias em greve e ocupando o campus há uma semana.

Esta situação já revela um grande absurdo. Foi preciso que estudantes e moradores abrissem uma parte do muro para que setores da população tivesse acesso mais fácil à universidade. O número de moradores do bairro dentro da Unifesp, diga-se de passagem, nunca foi tão grande desde o início da chegada da instituição ao bairro do Pimentas, em março de 2007. Algumas pessoas, no entanto, podem alegar que o portão da frente sempre esteve aberto e que, formalmente, não há restrições para a entrada de ninguém. Este texto tentará mostrar que não existe um livre acesso à Unifesp e a importância do ato de quebrar muro.

Em primeiro lugar, porque o muro se tornou um obstáculo físico não apenas por impedir a entrada de pessoas na universidade, mas porque também impede a circulação de carros no local e acabou por isolar cerca de cinquenta casas. O relato de uma moradora aos estudantes presentes na quebra do muro revelou que há alguns dias uma pessoa de idade avançada teve dificuldade em chegar até o hospital. O motivo principal era o fato do muro em questão impedir a ambulância de acessar sua residência.

Em segundo lugar, a mesma política que levou a construção do muro é aplicada para distanciar a população da Universidade. Ou seja, formalmente os moradores do bairro até podem entrar na universidade. Mas terão que enfrentar a vigia dos seguranças e o fato de não poder acessar os equipamentos públicos como a biblioteca, o restaurante universitário, o laboratório de informática etc.

Em terceiro lugar, e talvez mais importante, é o fato de que esta população que está privada de usar a universidade está excluída da Unifesp principalmente pelo fato de que não pode estudar na instituição. A expansão do governo do PT não se mostrou apenas precária e um fardo para aqueles que ingressaram nos cursos oferecidos. Ela se mostrou, acima ade tudo, insuficiente por oferecer poucas vagas. As vagas oferecidas pelos seus seis cursos de graduação da Escola de Filosofia Letras e Ciências Humanas são insuficientes até para o bairro do Pimentas. Elas são incapazes de absorver os formandos do ensino médio do bairro e, o que é mais grave, estes jovens são obrigados a competir com outras pessoas de todo o País em um sistema injusto como o vestibular (ENEM).

O problema, no entanto, não se restringe a oferta de vagas. As universidades têm sido uma das instituições utilizadas pela burguesia para impor sua dominação sobre os trabalhadores e o povo. Esta dominação vai desde a utilização dos recursos universitários para o enriquecimento de grupos empresariais até a ideologia difundida pela maioria dos professores. Na melhor das hipóteses, o ensino universitário tem um fim em si mesmo. Na maioria das vezes, é a doutrinação de jovens estudantes para que estes sejam capazes de defender a dominação da burguesia das mais diferentes formas e com os mais variados argumentos.

Desta forma, a função da universidade fica totalmente subvertida. Seja pela política de sua burocracia dirigente ou por agregar em seu interior majoritariamente uma pequena burguesia, camada inculta, parasitária e sem capacidade política e social de lutar de forma independente contra o atual status quo.

Os estudantes não constituem uma classe social, embora muitos sejam oriundos da classe trabalhadora. Mas ao entrarem em luta contra o atual regime universitário estão começando a romper não apenas com a mediocridade acadêmica, também estão começando a questionar e a enfrentar a classe dos exploradores do povo. A luta do movimento estudantil, neste sentido, se opõe à política dos empresários e banqueiros para a educação. Esta oposição abre caminho para que o enfretamento dos jovens universitários não se dê apenas contra uma política educacional, mas contra toda a política dos exploradores do povo.

Por isso, a quebra do muro é algo importante. Primeiro, pode permitir uma circulação maior de pessoas do bairro na universidade.  Segundo, porque mostra que os estudantes estão dispostos a lutar de fato, e não apenas em palavras. E o ato pode, acima de tudo, representar uma efetiva aliança entre os estudantes e a classe operária.

Comando de greve EM OCUPAÇÃO

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