Carta Aberta dos estudantes do Comando de Greve da EFLCH/UNIFESP

À presidenta Dilma Rousseff

Ao reitor Walter Manna Albertoni

Sra. Presidenta e Sr. Reitor, decidimos nos manifestar por meio desta carta aberta, que apresentamos nesse Conselho, motivados pelas últimas investidas policiais contra o nosso movimento que paralisa a universidade por 90 dias. Não poderíamos iniciar nossas colocações a não ser pela violação da autonomia universitária, pelo brutal cerceamento à liberdade de manifestação política, às prisões e aos processos contra estudantes em luta.

A invasão policial no dia 14 de junho, a saraivada de balas de borracha e as bombas de gás lacrimogêneo que feriram vários manifestantes, bem como as 25 prisões e ameaças aos presos, foram o ponto alto da escalada repressiva. Lembremos que a nossa luta em defesa de uma verdadeira UNIFESP e do ensino público e gratuito começou já em 2007, quando os estudantes viram que não recebiam do governo federal uma universidade, mas sim uma caricatura de universidade. Em 2008, o conflito recrudesceu, nenhuma medida para atender nossas reivindicações foi tomada e ainda por cima temos 48 estudantes processados pela esdrúxula lei que enquadra os lutadores como“formadores de quadrilha”.

A criminalização dos movimentos sociais pelo Estado e pelas ações governamentais é um perigo totalitário. Fala-se que a criminalização vem contrariando os direitos humanos. Também muito se fala que vivemos sob uma democracia e um Estado de direito progressista. Porém, os fatos demonstram que a criminalização dos movimentos sociais cresce sob essa tal democracia. Os direitos humanos que nos estão oferecendo são os da invasão policial da universidade, quando os estudantes lutam em sua defesa.

De que adiantaria vir ao Conselho Universitário com o Reitor, depois de quase 6 anos de luta renhida, cujo único resultado tem sido prisões coletivas e infames processos que nos qualificam de quadrilheiros? Nossa geração não viveu a ditadura militar, mas podemos dizer com certeza que o que estão fazendo conosco se diferencia apenas em grau do que se fez contra o movimento estudantil nos anos autoritários. A invasão do campus de Guarulhos pela polícia, que foi chamada pelo Diretor Marcos Cezar, pisoteou as mais elementares liberdades democráticas.

Nossas reivindicações são por demais conhecidas. Cabe tão somente dizer que não pode haver ensino em condições tão precárias, que beiram à indigência. A burocracia universitária pouco se importa com esse quadro, uma vez que não passa de administradores alheios à educação e ao processo de ensino. Os estudantes e os professores constituem a unidade educacional no seio da instituição escolar. Nós estudantes temos tomado a dianteira na luta pela edificação de uma verdadeira UNIFESP porque constituímos a principal força interessada no ensino que vincule o conhecimento à produção social. Por estarmos à frente e expressarmos a força viva de defesa da universidade pública, recebemos os golpes do conservadorismo, do burocratismo, da Justiça e da Polícia.

Temos a obrigação de responder à acusação de que depredamos o patrimônio público. Essa mentira deve ser desfeita. Lutamos exatamente para que a UNIFESP se torne verdadeiramente um patrimônio público. A defesa da autonomia universitária pressupõe o exercício do governo coletivo da universidade. O movimento estudantil, que expressa a organização e consciência política no seio da educação, é a força que mais tem interesse em zelar pela instituição pública e gratuita. A imagem de vândalos destruidores serve a objetivos escusos da burocracia acadêmica e para se armarem os processos criminais.

Acusam-nos, também, de violar o patrimônio ao ocupá-lo. Dizemos que recorremos à ocupação como recurso da greve destinado a romper a inflexibilidade do governo e do Reitor em não atenderem as justas reivindicações. Eis por que a ocupação que realizamos foi deliberada pela assembleia estudantil. Se nossos métodos de luta se chocam com o autoritarismo e o conservadorismo é porque não há outra via de conquistar as revindicações senão potenciando a capacidade coletiva do movimento.

Estamos sendo criminalizados por exercer a democracia e o método de ação coletiva sobejamente praticada pelos trabalhadores. A repressão e os processos que sofremos são por essa razão. O motivo alegado de depredação e de formação de quadrilha vem daqueles que estão em contraposição ao movimento e que exercem o poder do Estado contra os estudantes mobilizados. Querem deformar e falsificar o verdadeiro conteúdo de nosso movimento para convencer a população de que não lutamos por uma causa e sim para anarquizar a universidade.

O fato de hoje estarem em greve 53 IFES confirma nossas reivindicações e destaca a importância do movimento no campus de Guarulhos. Estamos à frente de uma luta mais ampla em defesa do ensino público e gratuito. Está se tornando cada vez mais claro para a juventude que o direito ao acesso universal depende do fim da mercantilização, com a edificação do sistema único, estatal e gratuito. Enfrentamos a duras penas uma longa greve, perdemos o semestre e arcamos com a repressão política em defesa de uma verdadeira UNIFESP, como parte de um sistema de ensino que acolha milhões de jovens sem possibilidade de estudos.

Sra. Presidenta e Sr. Reitor, nós estudantes da UNIFESP-GUARULHOS rejeitamos a imputação de “formadores de quadrilha” e exigimos que se admita a verdade dos fatos. Nesta audiência pública, portanto, reivindicamos:

Que a presidenta Dilma Rousseff e o Reitor reconheçam a justeza de nossa luta, que retirem todos os processos, que acatem a autonomia universitária reabrindo o Campus e que apresentem uma proposta de solução para as reivindicações.

Observação: Esta carta foi apresentada ao Comando de Greve para leitura na Edição do CONSU do dia 20 de junho. O texto aceito era para ser lido. No entanto, ele não foi exposto no Conselho porque somente o representante discente conseguiu fazer o uso da palavra com tempo limitado para ler todas as cartas.

Esse post foi publicado em Cartas. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Carta Aberta dos estudantes do Comando de Greve da EFLCH/UNIFESP

  1. Alpha disse:

    Que mania e escrever carta sem assinar! É mais do que óbvio que ela não representa o corpo discente, quem ela representa? Quais os nomes?

    Agora posam de vítimas de algum tipo de conspiração política, se tem algo de que são vítimas, é da própria vaidade ao crer, por exemplo, na apropriação de um espaço que não lhes pertencia! Tratavam com arrogância e rispidez qualquer um que ousava colocar em questão os seus próprios ideais e tomaram para si uma “iluminação” que, a rigor, não era mais do que uma malícia que se servia de ideologias ultraesquerdas para causar caos à comunidade do campus, sem qualquer real comprometimento ao interesse discente. Imagino que para esse grupo essa insana paralisação atingiu o seu objetivo com a maior eficiência, pois desde o início a meta era provocar confusão não importando o preço a pagar.

    Agora que estão isolados devido ao asco que seus discursos causam à maioria dentro do campus, resolvem fazer mendicância social e saem mandando cartinhas a tudo quanto é órgão que, segundo o ponto de vista desse grupo, passará a mão na cabeça e dirá “não se preocupem, o que vocês fizeram foi algo político”… paciência tem limite! Quem fez toda essa depredação, quem promoveu todo esse enorme prejuízo à comunidade da EFLCH sabia o que fazia e, portanto, deve arcar INTEGRALMENTE com as consequências de seus atos! Ter pena desse grupo, aos meus olhos, é o mesmo que ser cúmplice das ações deles. E mais trouxa é aquele que trata os meios empregados e o objeto da reivindicação como indissociáveis… pois aplaudirá de pé um estudante que, antes de levar esse nome, deveria ser chamado de vândalo!

  2. Misael Filosofia Noturno disse:

    Temos todos que concordar com o(a) colega Alpha quando ele(a) diz que “Quem fez toda essa depredação, quem promoveu todo esse enorme prejuízo à comunidade da EFLCH sabia o que fazia e, portanto, deve arcar INTEGRALMENTE com as consequências de seus atos!”.
    O problema é que não querem punir quem fez, mas quem elegeram para sentenciar sumariamente. Vê-se bem como opera o Estado Democrático de Direito, até nas palavras do próprio Reitor quando diz que os estudantes terão direito à ampla defesa, mas com certeza serão punidos… (sic). Se com certeza serão punidos, para quê defesa?

    • Estudantes

      Concordar com o Alpha!

      Basta pesquisar este blog para fazer um diagnóstico do que representam todos os “docentes e discentes” que se manifestaram contrários as justas reivindicações debatidas e aprovadas nas seguidas assembleias, utilizando-se covardemente deste pseudomino.

      A luta continua. Assembleia Geral dos 3 serrotes JÁ!

      • Morador da Lapa disse:

        Vê-se que vossa senhoria necessita urgentemente de um psiquiatra. E que seja um profissional especializado em psiquiatria GERIÁTRICA! Seu megalomaníaco!

  3. Dizer que ” nossa geração não viveu a ditadura militar, mas podemos dizer com certeza que o que estão fazendo conosco se diferencia apenas em grau do que se fez contra o movimento estudantil nos anos autoritários” é, no mínimo, tentar diminuir o que passaram aqueles que militaram no ME daquela época. Que a acusação de formação de quadrilha é absurda, também concordo, mas daí querer se comparar aos que lutaram contra a ditadura é forçar a barra.

    • Misael Filosofia Noturno disse:

      O mais importante é assumirmos de vez, dada a evidência, que temos aceitado paulatinamente a (re)instauração do cerceamento das liberdades e a prática cada vez mais ostensiva do excesso de controle e repressão dos indivíduos e dos grupos sociais. Devemos deixar de mentir para nós mesmos e ter coragem de confessar que tentamos naturalizar a violência de Estado em nome de uma falsa democracia representativa que só serve às elites. O que temos feito é apagar com borracha macia os anos obscuros da ditadura, que não se deve deixar de completar: foi uma ditadura MILITAR.
      A evocação da memória do período da ditadura MILITAR nestes contextos, não visa comparar movimentos sociais atuais aos daquela época, mas objetiva manter viva a história de horror dos crimes de Estado que temos permitido acontecer cada vez mais e com maior intensidade, e desta vez sem a necessidade de golpe de Estado. Temos aceitado passivamente porque temos sido adestrados para não resistir, para ajudar a justificar. Não é vergonhoso assumir. Vergonhoso é outra coisa.

      • Veja: denunciar a ação truculenta da polícia no campus, as prisões discricionárias,as torturas aplicadas aos alunos enquanto estes estavam presos não significa que precisemos evocar os tempos da ditadura, período muito mais duro que o atual.
        Entenda: não creio que a seja função do COMANDO DE GREVE lutar para que a memória dos horrores da ditadura militar não sejam obliterados. Talvez caiba ao ME. Mas há também os esculachos e as mobilizações para que a comissão da verdade não seja tão limitada, como parece que será.
        Quanto a ideia de liberdade, não há cerceamento dela, afinal esta nunca deixou de ser uma ideia. O que temos é sensação de liberdade, sensação esta que funciona visto que se traduz, no plano social, como espaço de movimentação onde são realizadas ações inofensivas à diretriz do atual do modo de produção.
        Não defendo que este seja bom período, mas a ditadura foi uma época mais dura, uma época em não poderíamos fazer um debate como este sem sermos vistos como subversivos.

        • Misael Filosofia Noturno disse:

          Sim, é contingente evocar o período. Mas para o militante de esquerda é sempre oportuno, pois os interessados em relegá-lo ao esquecimento não perdem uma oportuidade.
          Considero, particularmente, que a militância deve ser ampla, geral, não fragmentada, e, desde que se mantenha reta, estar onde for possível e a qualquer tempo. Ainda assim é pouco contra a ideologia burguesa irradiada em todas as frequências.
          Acho desgaste desnecessário adentrar no âmbito filosófico-conceitual sobre a ideia de liberdade. A liberdade da qual falei é esta mesma do corpo e do estômago – não da alma – inofensiva ao capitalismo. Não falo de revolução. Falo de direitos burgueses constitucionais elementares.
          Perceba que, independentemente de ditaduras ou “ditabrandas”, minha posição política é a de não admitir repressão, sobretudo política, de qualquer matiz.
          Obrigado pelo respeito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s