Considerações sobre o “Manifesto dos professores da EFLCH”

Diferentemente do que foi afirmado na abertura do manifesto dos professores, o movimento estudantil não começou em março de 2012, mas em meados de 2007, ano da inauguração do campus Guarulhos sob as mais precárias condições. Levar a público um problema de longos cinco anos como se fosse novo constitui a má-fé de tentar persuadir de que os estudantes são afoitos e beligerantes.

Durante esses cinco anos, a pauta de reivindicações continua a mesma, visto que nenhum ponto foi efetivamente resolvido, ainda que reconhecidos por todos como legítimos e necessários.

Ainda em 2007, os estudantes foram convocados por seus respectivos departamentos, de maneira a fragmentar a coesão do movimento, e coagidos a encerrar a greve de então e a aceitar a adesão ao REUNI sem a devida discussão que, a propósito, se arrasta ainda.

Além disso, na mesma ocasião, os incautos estudantes de posição política inconsistente foram incitados a comparecer à assembleia discente apenas no momento da deliberação sobre a continuidade da greve, unicamente para encerrá-la, como de fato ocorreu.

Passados esses cinco anos de descaso, a acusação de radicalização do movimento estudantil não pode ser dirigida a supostos instintos violentos, pois tem fundamento na pública e notória sucessão de descumprimento das promessas de implementação de melhorias feitas em diálogos e negociações abertos a fórceps pelos estudantes desde 2007, ao contrário das acusações de intransigência que são raivosamente dirigidas aos estudantes. A crítica política honesta é motora do debate, mas a distorção e a farsa são execráveis.

Insistir em ministrar aula em meio à greve discente é tão inocente, ou tão tático, e constitui tanta provocação e incitação à violência, quanto gritar palavras de ordem diante da polícia. Tamanha semelhança se reflete nos atuais protestos da mesmíssima natureza contra as consequências de ambos os casos.

A acusação de que no dia 14 de junho a polícia foi chamada para conter a suposta quebradeira implementada pelos alunos é, no mínimo, leviana, pois pode marcar para sempre a vida de pessoas que foram expostas às armas, detidas e que podem ser punidas simplesmente por estar no cenário, sem sequer estar engajada no movimento em curso. Por isso, necessita de comprovação, não de condenação sumária. No vídeo amplamente divulgado pela mídia os vidros que aparecem quebrados no dia seguinte permanecem intactos mesmo durante o confronto entre policiais e estudantes. Ademais, no áudio divulgado pela PM, o próprio diretor nega que os estudantes apedrejavam os vidros no momento do acionamento da polícia.

Não é o caso de elencar outros tantos aspectos controversos de inúmeros eventos passados, mas, pelo pouco que expusemos, perguntamos:

Qual é o real objetivo da publicação desse texto travestido de manifesto?

Onde estava e de que lado estava a maioria dos professores quando da implantação a toque de caixa do REUNI sem se saber se o programa ofereceria a devida estrutura para a ampliação das vagas?

Quando foi, no decorrer desses cinco anos, que os professores tomaram a iniciativa de expor a situação do campus Guarulhos e buscar soluções efetivas nos momentos de retração do movimento estudantil?

No que se refere ao encaixotamento de livros por falta de espaço na biblioteca, os professores se empenharam com o mesmo rigor dirigido contra a ação dos estudantes? E ao alto índice de evasão por falta de condições de permanência? E no tocante aos demais itens da pauta?

Desculpem-nos os inocentes que assinaram o “manifesto”, mas na política não há espaço para a inocência. O texto é nitidamente um documento político. Seus objetivos mais evidentes são: municiar a burocracia administrativa para a criminalização e punição dos estudantes que, desde 2007, lutam por melhores condições para toda a comunidade acadêmica e dar sustentação à sórdida estrutura de poder que relega o corpo discente ao lugar mais baixo na escala de interesses. Basta ver o segundo ponto de protesto do manifesto, cuja bandeira é a restauração da ordem e a consequente preservação dos mandatos em curso, ainda que maculados pela inoperância e pela mentira.

Concedendo-nos o direito da licença poética, e guardadas as devidas proporções, esse manifesto não difere das coletivas da assessoria de imprensa da ROTA, onde se justifica a eliminação de jovens da periferia sob a acusação de serem bandidos.

Grande parcela dos professores está apenas preocupada em comparecer ao campus uma vez por semana, por obrigação, e em encaminhar sua carreira pessoal, por interesse particular. Razão pela qual a eliminação dos estudantes contestadores ao extremo e a restauração da ordem é tão vital e vale qualquer preço, inclusive romper o silêncio em favor do status quo e contra os estudantes que, a despeito de tudo isso, continuam apoiando os docentes em sua, desde sempre justa, luta por melhores condições de trabalho e por melhores salários.

Na luta para que um episódio ainda controverso, ímpar e isolado não seja usado para eclipsar a saraivada de descaso levada a cabo por uma burocracia elitista e seletiva desde 2007 e em reconhecimento aos professores que se furtaram da assinatura do documento, em especial aos que demonstram, na prática, sua preocupação com o Campus e com seu entorno, subscrevemo-nos:

      1. Elson Moura – Filosofia – Noturno (ingressante em 2007)

      2. Gilberto Calixto – Filosofia – Noturno (ingressante em 2007)

      3. Misael Jordão – Filosofia – Noturno (ingressante em 2007)

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8 respostas para Considerações sobre o “Manifesto dos professores da EFLCH”

  1. Jess Lice disse:

    “Insistir em ministrar aula em meio à greve discente é tão inocente, ou tão tático, e constitui tanta provocação e incitação à violência, quanto gritar palavras de ordem diante da polícia. ”

    Disse tudo! Eu estou realmente lamentando essa situação, onde docentes não conseguem reconhecer o que são apenas sintomas de um descaso que se arrasta por anos…
    E se isso persistir, com a intransigência da gestão, podem até expulsar 3, 4 e até 10, mas outros tantos surgirão.

    • Misael disse:

      Parabéns ao professor Henry pela coragem de abrir o jogo. Vejamos se a voz do professor ecoa onde a nossa é ignorada. Desde já oferecemos nosso irrestrito apoio contra a possível retaliação por parte dos falsos democratas de branco.

      Apenas faço uma ressalva ao seguinte parágrafo do seu importantíssimo texto:

      “O projeto acadêmico de expansão da Unifesp para as humanidades éramos nós, professores, alunos e funcionários, que deveríamos ter percebido isso há mais tempo e tomado as rédeas de nosso destino. Lamentavelmente não fizemos isso”.

      Obviamente há estudantes que se enquadram perfeitamente nisso, mas há também aqueles que, desde a gestão da professora Cíntia, apontavam os problemas vigentes como inevitáveis. O fato de não ter “tomado as rédeas de nosso destino” foi por falta de condições subjetivas, visto que o movimento estudantil enfrenta também o problema histórico da incredibilidade. Não havia outra alternativa a esperar os fatos falarem por si.

      Talvez o momento tenha chegado. Esperamos que sua contribuição surta o efeito necessário e, finalmente, muitos ergam a cabeça acima da linha do umbigo; acordem para a enorme crise institucional nas universidades federais deste país e parem de propalar, pelo menos neste momento, a sede de vingança sumária por vidros quebrados cuja autoria, insisto, precisa ser provada. Isso caso se queira fazer valer o tão venerado direito que, quando convém, se quer abolir.

      Avante!

  2. Asterix disse:

    Vocês tem toda a razão, os antigos professores (6 anos de casa) deixaram o galo cozinhando como se nada fosse com eles. Agora precisam fazer o exame de consciencia como o prof. Henry e dizer: pisei na bola, a culpa é minha também. Também se não fossemos alunos bundões, estaríamos ocupando o campus. Temos cerebro, mas fomos incapazes de invadir e ocupar Brasília. É que o galho quebra sobr eo mais fraco, né não? Os antigos estudantes deixaram a bomba na nossa mão, fizeram pouco. agora o filho é nosso. Brigar entre iguais, ne matando. Não queremos mais policia no campus.

    • Luís Carlos Formado em Filosofia da primeira turma. disse:

      Caro Asterix
      Quero lembrar que desde 2007 até agora foram 4 greves de alunos e três ocupações, sempre denunciando as condições precárias. As pautas permaneceram as mesmas. Antigos estudantes tentaram não deixar “a bomba” em suas mãos e pagaram, ou ainda pagam caro por isso…

  3. Misael Filosofia Noturno disse:

    É a mais pura realidade que a consciência da necessidade de ação passa de geração a geração. Os estudantes de antes agiram no limite das condições materiais, da conjuntura e de suas capacidades, e muitos pagaram o preço disso. Mas deixaram para os atuais a certeza da necessidade de agir, ainda que em condições desfavoráveis. Assim também os de agora farão, e virão os próximos.
    A ação não pode esperar uma tomada de consciência coletiva. Numa sociedade cindida em classes, cujos atores têm interesses sociais distintos, não há unanimidade. Isso é mero idealismo, ou pelo menos, mera fé. Toda ação deve ser posta em prática sempre que a correlação de forças o permitir. Nem que valha apenas o avanço de um único passo. É assim que se configura o campo sempre desfavorável para os movimentos sociais: além de lutar contra o poderoso inimigo, luta-se sob a resistência dos iguais, ou dos semelhantes. As consequências são historicamente as mesmas: ataques morais e físicos, condenação sumária e repressão, ostracismo e morte.
    A imposição, “goela a baixo”, de uma ordem reconhecidamente produtora de desigualdade não é assumida como violência, mas a resistência a esta imposição sempre o será, pois, enquanto a primeira é travestida de interesse coletivo, a segunda é estrategicamente tomada como a vontade da minoria. Quanto mais fragmentadas essas minorias, mais fácil se torna contê-las, por força física ou por ideologia. Mas, a despeito disso, a consciência não cessa de chamar para a ação. A luta continua.

  4. Saúlo disse:

    Precisou de 3 pessoas para escrever todas essas idiotices?
    Pelo visto não é só o campus que tá um lixo ….

  5. Aos que se posicionam, sem tapar o sol com uma peneira!

    Brilhante! Altamente incentivador ler textos bem elaborados e que espelham a realidade e não um falso universos de pessoas, na sua maioria covardes anônimos (estudantes? docentes? buocratas?).

    Quanto ao processo desencadeado desde 2007, entendendo que 2012 é apenas uma consequencia e, não existem heróis ou heroínas, ou porque está entre os estudantes “que tentam criminalizar a qualquer custo”, como em 2008 (48) e 2012 (46 + 26). Qualquer estudante que sofreu de perto a repressão da Unifesp e PM e pensa ser herói ou heroina (caso exista) de algo, não passa de um alienado a exemplo dos alphacetes da vida.

    Tratar a precarização da Unifesp é redundância, todos estão cansado de saber ou vivenciar, agora tem um assunto que o ANDES ou ADUNIFESP se calam: a minoria de DOCENTES ESCOLÁSTICOS, DENOMINADOS DE FALCÕES ENTRE OS PRÓPRIOS DOCENTES DA UNIFESP GUARULHOS, verdadeiros algozes e “blindadores” das estrepulias do Diretor Marcos Cézar, este sim, deveria responder por cada centavo que empregou na Unifesp, inclusive nos tais “TAPUMES”, como também no tal “BANDEIJÃO”, verdadeiro palco de horrores, basta assistir os vídeos ou se atentar às fotos daquele local.

    Os DOCENTES que se revelaram PUBLICAMENTE em carta à Folha de São Paulo (mais uma “trapalhada”) também se igualam a este “silêncio irresposável” quanto aos desmandos da direção deste Campus. Isto sim deverá ser objeto de investigações e, não as insistentes acusações desta burocracia contra os estudantes que se colocam na frente das lutas, desde 2007.

    Este pessoal é tão raivoso que, de uma luta política em prol de todos, levaram todas as suas contradições com a proposta de transformação para o campo pessoal e, em vez de lutarem contra este estado de coisas, simplesmente revelaram seu lado ‘FUNDAMENTALISTA, IDEALISTA, PRÁTICO-UTILITÁRIO” contra os ESTUDANTES que se recusam terminantemente a serem SIMPLES OBJETOS em sala de aulas, sonho de cada um deles.

    A luta continua e, cada ESTUDANTE – seja de 2007, 2008, 2009, 2010 ou 2012 que estiveram à frente das lutas, REGISTRADOS OU NÃO DA POLÍCIA FEDERAL, devem fazer uma profunda reflexão e se juntar na luta pela transformação no “gueto campus guarulhos” em uma UNIVERSIDADE PÚBLICA, GRATUÍTA, UNIVERSAL E DE BOA QUALIDADE. O resto é papo furado de pessoas mal intencionadas e oportunistas.

    Juraci Baena Garcia
    Graduando em Filosofia
    Integrante do COLETIVO FILOSOFIA DA PRÁXIS

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