Unifesp Guarulhos: Histórico de descaso, mobilizações e punições

Vivemos uma das maiores greves da Universidade Pública. Das  59 universidades federais, 56 estão em greve de professores e técnicos, 38 em greve estudantil e mais 34 institutos federais estão com as atividades paradas. O governo se recusa a negociar com estudantes, técnicos e professores.

O Movimento Estudantil de Guarulhos foi um dos pioneiros em todo esse processo nacional, mostrando que estava correto em sua avaliação, e também pelo acúmulo das 4 paralisações entre os anos de 2007 a 2010, quando deflagrou greve estudantil em Assembleia, realizada em 22 de Março. Guarulhos não ficou isolado, pois semanas depois um movimento nacional crescia, com diversos setores das instituições federais deflagrando greve, reivindicando reestruturação da carreira, melhores condições de trabalho e infraestrutura.

Apesar das diversas tentativas por parte da reitoria e direção acadêmica de dar fim ao movimento de greve, aliada com alguns estudantes e professores, foram 5 assembleias vitoriosas, 2 ocupações, 1 reintegração de posse negada, com prazo para que a Unifesp prestasse explicações perante a Justiça, prisão de estudantes e o fatídico dia 14 de junho, quando a diretoria acadêmica, com respaldo da reitoria, chamou a Polícia Militar ao Campus Guarulhos durante um protesto, utilizando-se de um acordo entre Unifesp e as polícias Militar e Federal, para prender os estudantes e dar fim a manifestação, na qual reivindicavam abertura das negociações e a saída do atual diretor do Campus. “FORA MARCOS CEZAR”, é o que eles continuam pedindo, pois não cederam a nenhum tipo de pressão interna ou de forças externas, pelo uso da força policial.

Ato contra a Barbárie: Estudantes da Unifesp e USP realizam protesto na Av. Paulista contra a repressão, prisões e criminalização do movimento estudantil. (18/06)
 

Em cinco anos, cerca de 150 estudantes da Unifesp foram indiciados em inquéritos policiais e respondem judicialmente por algum processo. Problema dos estudantes ou do despreparo da gestão e da precarização?

Em 2007, 51 estudantes foram fichados por ocuparem a diretoria acadêmica do campus. No ano seguinte, a reitoria da universidade foi ocupada, resultando na prisão de 48 estudantes, que hoje respondem a processos judicias por formação de quadrilha. Em 2012, foi um ano de recordes, mostrando a total intransigência da gestão da Unifesp, com uma greve com mais de 100 dias, 48 presos na segunda desocupação da diretoria acadêmica, e outros 26 presos, durante o protesto do dia 14 de Junho.

Estudantes da Unifesp, presos no dia 14/06 fazem “cordão humano”, simbolizando todos os presos políticos da universidade desde 2007.
 

O Campus Guarulhos da Unifesp é um dos mais precarizados e esquecidos pela gestão da Unifesp e pelo MEC. Desde que foi inaugurado, em 2007, o campus ainda estava totalmente em obras, sem bandejão e biblioteca, que funcionava em uma pequena sala. Até hoje o campus  não possui prédio definitivo para realização das atividades acadêmicas e os alunos sofrem com dificuldades de acesso e de permanência. Porém, naquele ano, após greve estudantil, consegue-se a construção do bandejão e a contratação de novos docentes.

No ano seguinte, após ampla denúncia pela mídia, e pela comprovoção dos relatórios do TCU, foi constatado desvio de verbas, irregularidades e corrupção por parte da gestão da Unifesp, que após forte pressão estudantil e de diversos setores da sociedade e de uma ocupação da reitoria, acontece a queda do Reitor Ulisses Fagundes Neto, que renunciou ao cargo.

Em 2010, após 48 dias de greve, consegue-se pequenos avanços, como o Itaquerão, ônibus que leva os estudantes da estação Itaquera de metrô até o campus, e a construção do Prédio Anexo (conhecido pelos estudantes por “Puxadinho” – que não possui habite-se) e a promessa do reitor Walter Albertoni, que assinou uma carta prometendo o início da construção do prédio para o próximo ano, em Janeiro de 2011.

No início de 2012, depois de não cumpridas as promessas estabelecidas em 2010, de um ano de espera pelo início das construções e da tentativa de greve desarticulada pela burocracia no semestre anterior, deflagra-se nova greve, com a pauta material praticamente a mesma dos outros anos,  incorporando também, como foi em 2010, a não criminalização do Movimento Estudantil; pela retirada do processo dos 48 estudantes que ocuparam a reitoria em 2008; início imediato da construção do prédio; alocação dos estudantes em local próximo ao campus que tenha infraestrutura enquanto o prédio é construído; construção de moradia universitária; ampliação do bandejão (RU); ampliação da Biblioteca (hoje existem cerca de 18.000 livros encaixotados por não haver espaço físico suficiente na biblioteca) e linhas intermunicipais de ônibus saindo de mais locais da cidade de São Paulo.

Durante a greve que dura mais de 100 dias, o reitor se negou a vir ao campus. O “diálogo”, ao qual a reitoria sempre se referia, nunca existiu de fato. Foi um diálogo intermediado diversas vezes, pela Tropa de Choque da PM. Assim foi no ato do dia 20 de abril, quando após 4 horas de espera e tensionamento por parte da reitoria, foi feita a entrega da pauta de reivindicações do movimento, nas maõs do Reitor Albertoni; na desocupação da diretoria do campus Guarulhos do dia 06 de Junho; com o acionamento da PM na semana seguinte, dia 14, quando o campus foi transformado num cenário de guerra, com tiros e bombas de efeito moral lançadas contra estudantes, terminando na prisão de estudantes, que ficaram detidos por volta de 30 horas na Superintendência da Polícia Federal.

Estudantes são recepcionados pela Tropa de Choque e aguardam aproximadamente 5 horas em frente a reitoria para entregarem a pauta de reivindicações da greve. Reitoria sorrindo, na foto abaixo (ato do dia 20/04).
 
 
 
 
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4 respostas para Unifesp Guarulhos: Histórico de descaso, mobilizações e punições

  1. ESTRUTURA DE PODER DA UNIFESP

    Desde a carta assinada por alguns professores, enviada à FOLHA DE SÃO PAULO, ficou escancarada a forma repressora que ALGUNS DOCENTES TRATAM OS ESTUDANTES, dentro da mesma lógica de CRIMINALIZAR O MOVIMENTO ESTUDANTIL e ainda apoiar a Polícia Militar como forma de solucionar conflitos.

    Como exemplo maior, citamos as manifestações de DOCENTES QUE COMPÕE A MAIORIA DA CONGREGAÇÃO, órgão máximo do Campus Guarulhos, composto por maioria de DOCENTES, ALGUNS POUCOS TÉCNICOS E 03 (TRÊS) ESTUDANTES em REPRIMIR DURANTE A GREVE OS ESTUDANTES.

    Esta instância na sua maioria sempre apoiaram o DIRETOR ACADÊMICO, tanto na GESTÃO ADMINISTRATIVA DO CAMPUS, quanto nas políticas de REPRESSÃO ocorrida nos últimos 100 dias de greve.

    Não nos iludamos, ou partimos na defesa da PROPORCIONALIDADE como forma de democratizar a UNIFESP (CONGREGAÇÕES, CONSU e demais instâncias representativas) ou não avançaremos na transformação desta universidade.

    Algumas literaturas apontam a necessidade de democratizar as universidades e passa pela composição dos órgãos decisorios por maioria de ESTUDANTES. Desta forma, combatemos a BUROCRATIZAÇÃO, resultante das práticas de apoio de muitos professores, primeiro à ESTRUTURA DE PODER LOCAL e, em segundo, ÀS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS CONSERVADORAS.

    Questões materiais são IMPORTANTES, mas não transformam ABSOLUTAMENTE NADA, portanto, EFETIVA DEMOCRATIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE passa pelos ESTUDANTES E DOCENTES contrários ao CONSERVADORISMO escolástico, sendo uma importante ferramenta na construção de uma academia ligada aos tempos atuais, estimuladora da criatividade e totalmente contrária a REPRESSÃO DO ESTADO como forma de resolver as contradições.

    As entidades representativas ADUNIFESP E ANDES – como os demais partidos que se dizem de esquerda, deveriam ser os primeiros a estimularem este DEBATE, caso contrário, estaremos sendo OPORTUNISTAS e reais TRANSFORMAÇÕES acabam em PIZZA!

  2. AOS DOCENTES: TUDO VAI FICAR NO CAMPO DO PRÁTICISMO-UTILITARISTA E CONTEMPLATIVO OU VAMOS CONTINUAR LUTANDO PARA MUDAR ESTE MODELO DE UNIVERSIDADE?

    “O homem comum e corrente considera-se a si mesmo como verdadeiro homem prático; ele é quem vive a atua praticamente. Dentro de seu mundo, as coisas não apenas são e existem em si, como também são e existem, sobretudo, pela sua significação prática, enquanto satisfazem necessidades imediatas de sua vida cotidiana.” Adolfo Sánchez Vásquez, Filosofia da Práxis, 2007, pg. 33.

    Inaugurada em 2007 a estrutura da Unifesp Campus Guarulhos não é diferente dos modelos existentes: conservadora, contemplativa e porque não reacionária.

    Cabe fazer uma importante reflexão: quem são os responsáveis?

    A estrutura conservadora da Escola Paulista de Medicina; o governo conciliador do PT; a maioria que hoje governa o Campus, representada pelo Diretor Acadêmico e parte da Congregação ou os estudantes?

    Ao sermos críticos dos dirigentes burocráticos externos, desde o governo federal até a congregação, inclusive aos estudantes que na sua maioria ficam no conformismo, se utilizando, entre outros, do velho discurso sem rumo de que “a greve não é o único instrumento de luta, existem outros meios” – a quem restaria criticar?

    Mesmo com as severas criticas tanto de outros colegas quanto de docentes, sem entrar no mérito, afirmamos categoricamente se alguma coisa aconteceu neste Campus, deve-se exclusivamente a parte dos estudantes, sejam independente ou ligado aos partidos ou outras instâncias e, pouco aos docentes. Estes sim, meritórios de criticas pelo conservadorismo.

    Para não cometer injustiças, temos de falar um pouco da tentativa de alguns docentes em organizar conjuntamente com estudantes e técnicos, o grupo “Situação Crítica”. Nascia ali uma primeira tentativa real de transformação desta universidade, equiparando docentes, estudantes e técnicos, sem a tradicional equação “sujeitos e objetos”.

    Tanto é verdade que, mesmo alguns docentes negando, fica claro que a pressão de uma maioria de docentes conservadores foi suficiente para que em duas ou três reuniões, este trabalho fosse suspenso, mesmo com o elevado número de participantes.

    Durantes mais de 100 dias de greve o que restou senão uma forte pressão, desde o seu início, para que a greve fosse derrotada. Diversos factóides foram criados, tanto pela burocracia acadêmica quanto por docentes contrários à greve. O mais escandaloso foi a carta de alguns docentes à Folha de São Paulo, revelando a verdadeira face de uma maioria de docentes que, não deve ser diferente em outras universidades.

    Diante de todo o estado de coisas ocorrido durante esta greve, fica a tarefa de “que fazer” diante do fim anunciado desta greve. Se contentar com as conquistas materiais anunciadas ou efetivamente lutar para transformar este modelo de universidade arcaico e que todos criticam, mas não se movem para efetivas transformações.

    Com isto, se nada for feito, certamente deixaremos de aproveitar este momento histórico, construído pelo Brasil afora, transformando toda esta luta em questões concretas, cotidianas e que negam na prática-utilitária toda e qualquer transformação, caindo no imobilismo contemplativo que tem se transformado nossas universidades.

    E ainda, o pior e que provoca mais atrasos nas lutas por uma universidade pública, gratuita, universal e de boa qualidade: assistirmos ao massacre que esta casta burocrática prepara para os estudantes que ficaram na linha de frente e, nesta verdadeira fogueira inquisitória, certamente não faltaram algozes, seja de qual for a categoria que compõe este campus.

    Juraci Baena Garcia
    Filosofia

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