Nota do jornal Unifesp Livre sobre a agressão sofrida por uma estudante do curso de Ciências Sociais da Unifesp.

Na noite da última sexta-feira, uma estudante do curso de Ciências Sociais foi agredida por seu ex-companheiro, em pleno pátio da EFLCH. A agressão, que pode ser vista por muitas pessoas, é um fato da maior gravidade e, infelizmente, não tem sido a única desta natureza no ambiente universitário. O que desmente um senso comum que na universidade a mulher estaria em uma condição “menos pior” do que na sociedade, onde é alvo de inúmeras agressões. O fato ocorrido com a estudante citada ainda confirma os dados de que o agressor, na maioria dos casos, não é uma pessoa “estranha” à vítima, mas, via de regra, faz parte do seu círculo social.

Por isso, o jornal Unifesp Livre vem a público repudiar veemente a agressão e prestar seu apoio ao ato que ocorrerá no dia 30 de novembro na EFLCH. No entanto, entendemos que a agressão sofrida deve dar origem a algo muito maior do que estas importantes iniciativas que visam combater a agressão à estudante. É preciso abrir um amplo debate sobre a situação da mulher na sociedade e, em particular, na Unifesp.  O que se tem assistido na nossa universidade são agressões sistemáticas contra as mulheres. São inúmeros casos que, na maioria das vezes, não se tornam públicos pelo medo que as vítimas têm dos seus algozes. E, pior ainda, do medo que as vítimas têm em virar algozes, pois predomina em nosso meio a velha cultura machista que dá ao homem o direito de sobrepor aos direitos femininos. Em decorrência disto, as mulheres sofrem ameaças de diversas naturezas, agressões e há até mesmo casos de estupro.

A agressão sofrida em pleno pátio da universidade, neste sentido, mostra que a onda de repressão contra as mulheres se tornou tão intensa que os agressores nem mesmo estão se preocupando em disfarçar seus atos. O que nos leva a conclusão de que estamos vivendo uma espécie de “lei da selva”, onde os direitos políticos das mulheres são completamente desrespeitados. Qualquer um que observe criticamente esta situação pode constatar isto. Neste e em outros casos a “honra masculina” tem se sobreposto aos direitos das mulheres, o que, na prática, é sobrepor à moral [conservadora] à lei, ou seja, regredir à “idade das trevas”.

A onda de repressão às mulheres, por sua vez, também não pode ser vista da onda repressiva que vivenciamos em nossa universidade e na sociedade. Partimos de um velho princípio de que o “avanço de toda sociedade deve ser medido pelo avanço dos direitos femininos”. Por isso, é preciso relembrar um fato que tem passado despercebido nos últimos anos. O movimento estudantil na Unifesp surgiu como um movimento dirigido por uma maioria de mulheres. E a primeira grande onda de ataques ao movimento, iniciada no final de 2008 pela reitoria, teve as mulheres como principal alvo. Neste sentido, não podemos tolerar estes atos contra as mulheres no interior do próprio movimento. O caso de agressão à estudante partiu de um dos participantes da greve. Isso, em nenhuma hipótese, deve servir para amenizar as atitudes do agressor. Pelo contrário, deve apenas servir como um agravante, uma vez que o ato também enfraquece este movimento de luta.

Acreditamos que diante desta situação de barbárie vivenciada pelas mulheres é preciso tomar atitudes enérgicas e que a libertação da mulher só pode ser obra das próprias mulheres. Por isso, todo ato em defesa da emancipação feminina deve ser apoiado. Defendemos que qualquer mulher que se encontre em uma situação de risco por causa da violência praticada por um homem pode e deve recorrer a qualquer meio para preservar sua integridade física.  E, neste sentido, as mulheres precisam debater e colocar em prática uma política de autodefesa, recorrendo aos meios necessários para impedir o avanço do domínio masculino, por um lado, e por outro lado, para avançar na conquista de uma verdadeira emancipação.

Não é possível avançar politicamente compactuando com a repressão às mulheres. Mais ainda: “não há “movimento revolucionário sem a presença das mulheres”. Foram as mulheres, inclusive, que deram início às duas revoluções mais marcantes dos últimos séculos. Na França,  foram as trabalhadoras dos mercados de Paris que iniciaram a Marcha sobre Versalhes, fato que marcou o início da Revolução Francesa. Na Rússia, foram as tecelãs de Petrogrado que em pleno dia 8 de março iniciaram a greve geral que culminou na queda do czar.

Nós, do jornal Unifesp Livre, lutamos pelas reivindicações estudantis e pela transformação da universidade e da sociedade em um sentido revolucionário. É um fato conhecido que a exploração de uma classe pela outra foi antecedida da exploração da mulher pelo homem e, neste sentido, não é possível falar em transformação política e social sem a defesa intransigente das mulheres e de seus direitos.

Madalena

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8 respostas para Nota do jornal Unifesp Livre sobre a agressão sofrida por uma estudante do curso de Ciências Sociais da Unifesp.

  1. Alpha disse:

    Preservaram as pessoas e puseram a causa em questão. Embora discorde de alguns pontos, o que não vem ao caso, as colocações estão bem pertinentes.

  2. Carol disse:

    Só para esclarecer, o debate sobre questões de gênero e sexualidade vem acontecendo desde 2010. Não participar dos debates não significa que não existe… O debate, amplo, está aberto. E TODXS devem participar, não apenas quando acontecem essas coisas na universidade.

  3. spirituarise disse:

    Cada um fica ou se relaciona com quem merece.

  4. Tom M Maia disse:

    Parabéns pelo texto, coerente e sério. Era o que eu esperava.

  5. Juliana Nunes Hitzschky disse:

    No sabia que novembro tem 31 dias…

  6. larscameschi disse:

    Acho que as pessoas deviam saber o que acontece antes de falar….to esperando ela se manifestar para eu o fazer em seguida….e se ela não se manifestou até agora, é pq não fui só eu quem errou….estou no aguardo. Abraços!

  7. M. A. Leme disse:

    Saudações. É importante deixar claro que não estou de acordo com o acontecido, e tampouco com o que vem acontecendo. Denuncio aqui a farsa que está por trás do factóide que envolve o acontecimento do dia 30 de Novembro. Antes de falar sobre a farsa, farei uma exposição sobre a perspectiva da minha opinião. A denúncia em questão fala de agressão, mas no entanto não se sabe quem agrediu primeiro; é preciso analisar de modo prático e compreender a vida como ela é. A linguagem encobre certas sutilezas da intenção.
    ” Um homem que pega todas as mulheres é garanhão, é o cara. No entanto a mulher que pega todos os homens é puta. Numa outra perspectiva: um homem que agarra um mulher é estrupador, mas uma mulher que agarra um homem é apenas uma mulher carente. Um homem que agride um mulher é um agressor machista, mas uma mulher que agride um homem eu não sei como se chama; certas mulheres costumam por qualquer motivo aparente partir para a agressão, amparadas pela lei Maria da Penha. O que está em questão pode ser e não ser um caso de machismo; precisa ser discutido com cuidado para que não prevaleça a moral do forte e nem a moral do fraco”.
    Ao que parece, os grandes comentadores do incidente são pessoas que precisam de fatos para afirmarem o seu próprio ponto de vista, como por exemplo as pessoas envolvidas na eleição do DCE, as pseudo-feministas que aliás se parecem cada vez mais com a inquisição espanhola. Nunca confundir liberdade de expressão com opressão. Enquanto a fofoca rola solta, cadê o prédio…

  8. Djamila disse:

    “Saber quem bateu primeiro é brincadeira”. Há várias testemunhas; o Laerte agrediu e agora esse povo fica querendo inventar histórias. Não é a fofoca que está rolando solta e sim pessoas que repudiam violência contra a mulher se manifestando.M.A. Leme (se que é esse seu nome mesmo), você desconhece a trajetória do movimento feminista. Denunciar, fazer atos, quebrar o silêncio é um modo de mostrar que não nos calaremos diante de violências como essa. Kathleen não precisa se pronunciar sobre nada; somente o irá fazê-lo quando chamada pra depor. É muito fácil ficar chamado as pessoas de pseudofeministas, como se alguém precisasse tutelar; dizer a alguém se a pessoa é feminista ou não. Que critérios são esses? Qualquer pessoa pode ser amparada pela Lei Maria da Penha; acontece que as mulheres são as que mais a utilizam justamente por uma questão de demanda. São elas as mais agredidas. Ninguém deve agredir ninguém, se um homem foi agredido por sua companheira, que vá procurar a justiça. Impressionante como as pessoas se usam de argumentos falaciosos para querer legitimar um ato de violência. Mas o que importa é que o B>o foi feito, a sindicância na universidade aberta e nós acompanharemos tudo de perto! É muito mais digno assumir o erro; dizer ao amigo ou companheiro para ele assumir o erro em vez de ficar com essa atitude ridícula de se justificar o injustificável. Nessas horas a gente realmente vê quem é quem. A pessoa grita contra a opressão do Estado, contra a falta de estrutura na universidade e é incapaz de perceber que o que aconteceu no dia 23/11 foi uma atitude opressora. O mundo e suas inefáveis contradições….

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