Um 2012 rebelde e radical na Europa

Hugo R C Souza
https://i2.wp.com/anovademocracia.com.br/101/21a.jpg
Gregos lembram o aposentado Dimitris Christoulas

O ano de 2012, que começou com medidas desesperadas dos capitalistas europeus para dar alguma sobrevida aos seus monopólios e bancos moribundos, termina com a renúncia do “primeiro-ministro” tecnocrata da Itália, Mario Monti, indicado pela Alemanha, simbolizando o fracasso geral das intervenções da União Europeia e do FMI nos países europeus mais castigados pela crise geral; e com a Finlândia, nação apresentada até um punhado de meses atrás como a salvo da crise capitalista internacional, entrando oficialmente em recessão, com o Produto Interno Bruto finlandês despencando 1,2% em relação ao fim de 2011 e com a maior transnacional daquele país, a gigante das telecomunicações Nokia, fechando 2012 à beira da bancarrota.

O ano foi também de heroicas lutas das massas trabalhadoras da Europa contra o arrocho geral no continente. O ânimo do proletariado europeu em geral para a luta classista foi-se agigantando no decorrer do ano, resultando em um segundo semestre especialmente combativo, de intensas lutas contra as medidas antipovo intentadas pelos artífices da Europa do capital monopolista, prenunciando um 2013 de lutas ainda mais acirradas e radicalizadas contra as classes opressoras.

Relembremos alguns dos mais destacados episódios de protestos populares ocorridos em 2012 na Europa.

Em outubro retumbantes marchas proletárias nas cidades de Londres, Glasgow e Belfast, respectivamente na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda do Norte, fizeram tremer toda a Grã-Bretanha em uma radicalizada jornada de protestos coordenados contra o maior arrocho imposto às classes populares britânicas desde a guerra movida na década de 1980 pela “Dama de Ferro” Margareth Thatcher contra os sindicatos e os direitos historicamente conquistados pela classe operária britânica

Naquela feita, chamou a atenção o coro ensurdecedor da multidão em marcha pelas ruas de Londres: “Plebes do mundo, uni-vos”, remetendo à famosa exortação para a organização e luta internacionalista dos trabalhadores escrita por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista, e ironizando um alto membro do partido do primeiro-ministro David Cameron que tentou depreciar um policial, chamando-o de “plebe”, um insulto reacionário na Grã-Bretanha, tendo por isso sido demitido do “governo” britânico.

‘Acordai!’

A Grã-Bretanha também foi palco em 2012 de retumbantes protestos estudantis, como aquele do dia 10 de novembro, em Londres, quando a capital britânica silenciou ante uma marcha de 50 mil pessoas. A juventude britânica lembrou aos jovens de todo o mundo que seu lugar é na linha de frente das trincheiras das lutas das classes populares contra a onda de políticas antipovo desencadeada pelas classes dirigentes, ora acossadas pelas ruas e pela infindável crise dos monopólios.

No mês anterior, em setembro, na capital portuguesa, Lisboa, um outro coro de multidões ecoou várias vezes, fazendo tremer a espinha dos serviçais da Europa do capital monopolista que se dizem “primeiro-ministro” e “presidente” de Portugal.

Em manifestações levadas a cabo pelas massas portuguesas na frente do Palácio de São Bento, sede do Executivo português – Executivo que executa à risca a cartilha de medidas antipovo ditada pelo FMI e pelo Banco Central Europeu –, que tem à frente o fantoche Pedro Passos Coelho, e à porta do Palácio de Belém, residência oficial do “chefe de Estado” Aníbal Cavaco Silva, o povo entoou em uníssono uma antiga canção portuguesa de conclamação do povo contra o fascismo de Salazar na primeira metade do século XX, intitulada “Acordai!”.

Outro gesto da luta contra o fascismo do presente que remeteu às lutas contra o fascismo no passado em Portugal foi o de o povo português levar cravos vermelhos para as ruas no dia em que um milhão de pessoas se mobilizaram de norte a sul daquela nação em protesto contra as draconianas medidas de “austeridade” que lhes vêm sendo impostas, remetendo à “Revolução dos Cravos” que pôs fim ao salazarismo. Foi um dos maiores protestos populares de toda a história do país.

Naquele mesmo dia, 15 de setembro, aconteceu também uma das maiores manifestações populares de 2012 na Espanha contra as medidas antipovo que vêm sendo implementadas pela gerência de Mariano Rajoy. Centenas de milhares de pessoas reuniram-se na capital Madri e formaram imensas colunas proletárias multicolores que marcharam pela capital espanhola representando os segmentos das classes populares mais castigados pelo arrocho dos capitalistas e dos gerentes políticos e pela chaga do desemprego.

Assim, os operários marcharam em Madri vestidos de vermelho; estudantes, seus pais e funcionários do setor de educação foram vestidos de verde; idosos e dependentes usaram roupas de cor laranja; os trabalhadores da saúde vestiram branco; a generalidade dos funcionários públicos marchou na capital espanhola trajando roupas pretas, enquanto as associações de mulheres vestiram lilás.

Correram o mundo as imagens de uma multidão de populares cercando uma pequena tropa policial açulada contra o povo para reprimir um protesto. Os policiais tiveram que se retirar sob ataque dos manifestantes. Vários deles, os policiais, ficaram feridos.

Outro povo que em 2012 enfrentou com coragem e altivez as forças de repressão do velho Estado para defender a sua pátria e os seus direitos foi o povo grego, com sua firmeza de propósitos para as ações radicalizadas contra as classes opressoras e os interventores estrangeiros e sua extraordinária tenacidade para organizar sucessivas greves gerais contra um dos mais odiosos arrochos, uma das mais infames contraofensivas de medidas antipovo da história.

Às armas, contra os traidores!

https://i1.wp.com/anovademocracia.com.br/101/21b.jpg
Em toda a Inglaterra milhares de pessoas protestaram em 2012

Aconteceu na Grécia aquele episódio de 2012 mais dramático, mais simbólico, mais duro acerca da situação das classes trabalhadoras da Europa em crise e que melhor traduz o estado de espírito de povos inteiros assolados pelo desemprego e pela cassação sumária da maioria dos seus direitos e garantias historicamente e duramente conquistados: o suicídio, no dia 4 de abril, do farmacêutico aposentado Dmitris Christoulas.

Dmitris, que tinha 77 anos de idade, atirou contra a própria cabeça na praça Syntagma, em Atenas, bem na frente do parlamento da Grécia, onde o FMI, a União Europeia e a gerência títere de Lucas Papademos fazem sacramentar os cortes de salários, de pensões, de direitos e de tudo mais que possa penalizar o povo e beneficiar os bancos.

“O governo de ocupação de Tsolakoglou aniquilou literalmente os meus meios de subsistência, que consistiam numa aposentadoria digna para a qual contribuí durante 35 anos (sem qualquer ajuda do Estado). Como a minha idade já não me permite uma ação individual mais radical (ainda que não exclua que se um grego tivesse empunhado uma Kalachnikov eu teria sido o segundo), eu não encontro outra solução que não seja uma morte digna, porque me recuso a procurar alimentos no lixo. Espero que um dia os jovens sem futuro empunharão as armas e enforcarão os traidores, como fizeram os italianos em 1944 com Mussolini, na Praça Loreto de Milão.”

A referência a Tsolakoglou, no início da carta, diz respeito ao general que chefiou o governo colaboracionista da Grécia sob ocupação da Alemanha nazista. O aposentado que se sacrificou para não deixar dívidas para os filhos e netos, conforme ele teria gritado para todos ouvirem pouco antes de disparar, abertamente e acertadamente comparou o atual gerenciamento grego à ocupação fascista do país em 1941 e 1942. A carta de Dimitris Christoulas, denotando uma profunda consciência política, incendiou ainda mais a Grécia rebelde e por certo foi um dos elementos que fez o povo grego figurar entre os mais combativos na hora das lutas que urgem serem travadas em nome da liberdade dos povos.

Bilhetes e cartazes de agitação passaram a ser colocados em uma árvore próxima ao local onde o aposentado se matou. Algumas das mensagens por certo irão ecoar e se amplificar em 2013 e nos anos subsequentes, que serão de decisivos embates entre a Europa do mundo do trabalho e a Europa do capital monopolista. São mensagens como “Nada de eleições; revolução!” e “Povo, acorde, pegue as armas!”.

Fonte: A Nova Democracia

Esse post foi publicado em Notícias, Saiu na mídia e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s